segunda-feira, 4 de julho de 2011

Estado e Igreja

Formalmente na modernidade os assuntos políticos e públicos, isto é, os assuntos de Estado, não podem sofrer nenhuma mistura com os assuntos religiosos, ou seja, com a Igreja. A isso dá-se o nome de Estado laico, ou, laicidade. Já o laicismo é um movimento histórico, datado em torno do século XVI que tem a ver com questões relativas a participação do leigo no governo da Igreja.
Na prática, porem, a Igreja interfere diretamente nos assuntos públicos e políticos. Há uma gama de temas que começa com o aborto, passando pela homofobia chegando até aos transgêncios e aos usos terapeuticos e genéticos das celulas-tronco, nos quais a Igreja interfere. O contrário não se vê, isto é, o Estado interferindo nos assuntos das Igrejas.
É verdade que entre as denominações religiosas existe muitos conflitos e falta de unidade na abordagem dos temas elencados à cima. Mesmo no caso do aborto, temos divergencias porque há grupos de religiosos que entendem defender a liberdade da mulher na escolha do ato de ter ou não filho, mesmo quando já grávida. O corpo da mulher apenas a ela lhe pertence.
Não é essa a posição da maioria dos cristãos. Todavia, a questão é: Por que a Igreja continua, não apenas se posicionando sobre assuntos públicos, mas tendo forte lobbi na condução de certas decisões?
É óbvio que o crente é um cidadão como outro qualquer. Logo ele deve sim ter a sua opinião respeitada quando se trata de formação de leis que podem vir a ferir os seus valores. Nesse caso podemos fazer uma distinção entre o cidadão cristão que se posiciona diante de temas conflituosos a partir de valores apreendidos na Igreja, da posição forte e política da instituição Igreja. Uma coisa é o cidadão e outra diferente é a instituição Igreja. O cidadão vota e opina a partir de seus valores religosos, culturais e políticos. Já a Igreja, além de defender os valores cristãos no cenário público, atua nos bastidores da formação politica dos blocos de poder. A Igreja é uma instituição também política extremamente atuante. O seu poder político prova que a laicidade existe apenas formalmente, dentro de certos limites estreitos, pois na pratica a Igreja é muito poderosa.
Historicamente a Igreja sempre atuou politicamente, seja apoiando regimes políticos ou combatendo certas orientações de governo tidas como contrárias aos costumes e valores cristãos. A Igreja tem muita força política. E seria utopia acreditar que a Igreja não interfere nos assuntos públicos. Porem, até que ponto os legisladores, os juizes de tribunais e os governantes devem ouvir e aceitar as posições da Igreja, no momento de tomar as suas decisões? Temos visto que até durante os processos eleitorais a Igreja tem um peso forte. Foi o caso do ajuste que a candidata Dilma fez com a CNBB sobre o tema do aborto. Ela simplesmente negou o que ela própria pensava e o PT, para aceitar literalmente a posição dos bispos sobre o aborto. E o fez porque sabia que sem o apoio da Igreja a sua eleição poderia sofrer baixas fortes. Ouso dizer que um canditado a presidente sem o apoio dos cristãos dificilmente se elege no Brasil, quiça em outros tantos países ocidentais ou mesmo orientais.
Mesmo no STF quando da decisão sobre permitir ou não as pesquisas com as celulas-tronco, que envolvia definições filosóficas sobre quando começa a vida, mesmo alí, prevaleceu a posição cristã de que o feto, não importando o seu tempo de formação, desde que em gestação, já é vida e assim não poderia ser sacrificado ou usado como material genético de pesquisa.
Se o todo poderoso Supremo Tribunal Federal sofre forte pressão da Igreja, então o que dizer dos prefeitos e Governadores, deputados e vereadores, juizos estaduais e conselheiros de Conta? Mas, seria isso adequado ao regime democratico que prevê que as decisões políticas e os assuntos públicos devem ser tratados de forma distante das injunções religiosas?
DILMA E A POLÍTICA

Tá ficando muito evidente que a Dilma vive dilemas profundos em sua gestão política. De um lado parece que o Lula está próximo demais, ela não pode sustar o jogo com ele, mas também não consegue dizer claro ao congresso como que vai tocar o seu governo. Em política os dilemas são no fundo fraqueza, são muito bem explorados pelos adversários.
O PT não é um partido fácil de ser conduzido. Lula jogou pesado contra algumas lideranças internas quando teve que optar entre seguir a linha monetária e fiscal de FHC ou dá um cavalo de pau na economia. Optou pelo pragmatismo e teve que segurar o PT no braço , mas o fez com competencia digna de registro histórico.
Dilma agora não vive o dilema de seguir a linha de seu antecessor, mas o dilema de ter que decidir contra o seu antecessor. Mas, para fazê-lo não bastará a fala e a força diretas. Há muito mais em jogo. Ela terá que mexer no ordenamento político, não necessariamente o jurídico, dos partidos. E para isso terá que iniciar a caminhada conversando com os ex-presidentes.
Kassab moveu peças no jogo provavelmente(pura especulação minha, SBF) orientado por FHC.. A carta que Dilma mandou para FHC foi do tipo que em política se traduz como: então, tá na hora de conversar, não? No velório do Itamar, Aécio Neves olhava para Dilma e FHC como quem diz: Tá mesmo na hora do diálogo. Se as grandes lideranças ficarem na briga fratricida de outrora, tanto da era de FHC quanto da era Lula, o Brasil não sai do lugar, e os recursos públicos vão ficar no congresso como divisão grotesca de verbas, e não como meio de propulsão para um novo mundo no país. O Brasil precisa ser pensado e elaborado. Não dá para usar de forma perdulária os recurso vindos do pré-sal e depois simplesmente não ter nada para oferecer às gerações futuras.
O Brasil cresce, mas não se desenvolve. Para isso tá na hora de propor reformas estruturantes que vão desde a questão político-eleitoral até o sistema tributário e fiscal. Com a armadura institucional da política brasileira atual não se vai conseguir ir muito longe. As mudanças que o país precisa sofrer são de qualidade e não de quantidade. Não basta aumentar a produção de soja, tem que haver investimento em ciência e tecnologia, infraestrutura e logística. Com o dinheiro vindo de tecnologias velhas e sujas como são as do petróleo, da metal-mecanica, as pedras de granitos e mármore..., enfim tudo isso não é suficiente e na verdade irá deixar déficits profundos nos recursos naturais disponíveis.
A educação tem que sofrer investimentos para que se possa preparar o país para o futuro, o futuro movido por energias limpas. O país precisa instaurar o debate sobre qual o desenvolvimento que queremos. Agora uma outra CPI e novas ondas de denúncias de corrupção...
A Informação Nas Novas Mídias

O mundo vive uma revolução na produção e circulação de informação e conhecimento. É verdade que temos que fazer uma leve separação entre as informações que temos hoje armazenadas nos arquivos e bibliotecas no mundo concreto, da cognição que a opinião pública produz instantaneamente. Essas duas coisas estão vinculadas.
No primeiro caso, estamos diante da questão de saber se o impresso será substituído pelo digital/virtual. O segundo ponto refere-se a instantaneidade da produção e circulação de informação. Não apenas o caráter instantaneo, mas a possibilidade do acesso irrestrito do público geral para produzir informação. Muda hoje a forma como a informação está sendo produzida pelo fato de que mais pessoas tem acesso e ao mesmo tempo produz informação.
Todo o conhecimento e toda a informação que existe hoje em forma material, no impresso, não migrará para o digital, apenas uma boa parte está sendo negociada para liberarem o seu passaport para o mundo virtual. Então, isso significa que apenas no plano da rede virtual não podemos acessar tudo o que o ser humano acumulou até hoje de saber e conhecimento. Isso refere-se ao passado, ao que foi acumulado.
Entretanto, há uma revolução ocorrendo do presente para o futuro que é o fato de que toda a produção relevante de informação sobre a vida e o mundo está sendo feita nas redes, no plano virtual. Tudo o que nós passaremos a saber e conhecer sobre as coisas estará na internet, será produzido em redes virtuais de comunicação. Da arte à ciência, da religião à literatura, dos jornais diários às mídias eletronicas. Não há dúvidas de que as bem sucedidas estratégias de conectividade na web migram para todas as atividades da vida. As TVs estão conectadas e estar conectado torna-se um imperativo de vida. Migrando a informação para a conectividade migra também o poder que passa a ser exercido em função do contrapeso da democratização da produção de informação.
Logo, são duas direções num mesmo veiculo transformador na internet. A primeira direção é a da técnica da informatização do conhecimento. Isto é, o conhecimento rodando sobre o HD. O segundo elemento diz respeito à criação de redes comunicativas. Isto é, o softwer divorciando do HD local para circular como base de redes sociais, corporativas e governamentais. Há várias questões suscitadas por essas transformações. Desde o debate sobre a propriedade intelectual até os efeitos de segurança da informação criculando sobre os estados nacionais e as instituições internacionais.
Mas, o que tem chamado muito a atenção ultimamente é o debate sobre qual o destino da mídia corporativa diante da explosão das mídias sociais de informação e conhecimento. O potêncial das mídias sociais na internet, em termos de produção de informação, é imenso. Hoje elas já conseguem pautar os jornais impressos. A televisão, cujo domínio é o da lógica corporativa de mercado, resiste o quanto pode, mas já dá sinal de que ou negocia com as mídias sociais ou poderá ser atropelada. Pois se as exibições de vídeos na WEB seguirem este ritmo em pouco tempo a produção de imagens será tão facilitada quanto a produção de textos escritos. Inserções locais de reportagens sobre os bairros, eventos musicais, debates politicos e culturais, cobertura especializada de manifestações diversas da população, e.t.c., terão a sua edição disponibilizada para qualquer um que queira produzir informação. A própria população então como opinião pública tem a possibilidade de acessar e dispor seus próprios saberes e interpretações sociais de mundo num contexto intersubjetivo tonificado. E as mídias corporativas terão que se adequar. É um longo processo mas que tem sinais evidentes de ampliação do acesso à informação e democratização na produção do saber sobre o mundo social. Conflitos e disputas estão também na origem e formação de todo esse processo.
Sergio Fonseca

domingo, 3 de julho de 2011

O Futuro da Natureza Humana de Jürgen Habermas

O que devemos esperar moralmente da biotécnica?
O filósofo alemão Jürguen Habermas ficou conhecido na Europa, nos EUA e no Brasil em função da sua "Teoria da Ação Comunicativa", um calhamaço de mais de 1000 páginas, publicado em dois volumes e mais acréscimos, que provocou um verdadeiro terremoto ao liberar espaço para as criticas sofisticadas ao marxismo ortodoxo, conter o ímpeto anti-modernista dos frankfurtianos e pôr limites nas pretensões da filosofia alemã de só conversar com os seus pares.
Ele quebrou o lacre provinciano do pensamento europeu e revelou que da América estava saindo as coisas mais importantes em termos filosóficos. Enfim, disse, em tom um pouco empolado, mas rigoroso e sério, que filosofar exige uma boa dose de clareza e prova empírica. Um bom texto filosófico não pode ser algo criptografado como era costume entre os alemães. Habermas começa lá atrás com Pierce, do pragmatismo, até chegar ao debate com Rorty, Davidson e tantos outros. A teoria da ação comunicativa, em poucas palavras, atualizou o pensamento de esquerda indicando a necessidade do diálogo com outras fronteiras da cultura intelectual moderna, principalmente o pragmatismo e o liberalismo.
Ele movimenta o ambiente filosófico agora com uma discussão sofisticada acerca das implicações das pesquisas genéticas para a integridade moral da espécie. "O Futuro da Natureza Humana" toca esse tema de forma muito peculiar pois vai ao encalço da problemática que vincula a reflexão sobre o iluminismo e os destinos da razão ocidental na base da técnica programada. Ou seja, Heidegger estará lá, na ponta, à espera de um passo em falso do combatente pela razão.
As terapias genéticas haviam posto à disposição dos seres humanos possibilidades regenerativas dos tecidos nunca antes vistas. Com a biotécnica, porém, estas possibilidades se amplificaram ao ponto de o próprio conceito de humano se ver ameaçado. Trata-se da disponibilização de uma técnica cientifica que reproduz seres humanos. Projetistas, os designers, com orientação de pais interessados, projetam seres humanos com todas as características orgânicas nossas conhecidas, porém, previamente definidas. O projeto do parque humano ou da colônia humana parece estar em vias de aparecer. Mas, Habermas não segue esse caminho interpretativo, obviamente. Ele tenta reconectar a disponibilidade de uma técnica programada para construir "protótipos humanos" ao liame da moral e da ética publicamente articuladas. Os valores do humanismo aqui são bem vindos pois apenas com eles podemos ter lastro para saber onde queremos ir com a técnica de manipulação de protótipos humanos.
Na física neoclássica, com a exploração da energia atômica, se pôs à disposição dos seres humanos uma estupenda capacidade de destruição com base na manipulação dessa energia. Provou-se em 1945 efetivamente do sabor do fruto da árvore proibida. Isso parecia tudo e os pessimistas de plantão estavam convictos de que a ciencia havia chegado ao monstro que somos e que se escondia por dtrás de libelos e cartas de intenções. De que somos capazes quando temos disponíveis poderes e técnicas nunca antes imaginados? Eis os temas do debate filosófico de época. O que temos agora em pleno século XXI é a disponibilidade de técnicas genéticas que podem alterar de forma pre-fabricada os conjuntos humanos. Em outras palavras, estamos intervindo com base num plano racional e planejado de ciência e técnica, no nosso próprio corpo. Que interesse o poder pode ter nisso? os intereses economicos, políticos e raciais estão na espreita!

Heidegger e o Humanismo

Mesmo Heidegger, depois de toda a porcaria do nazismo, lá na floresta negra, num silencio irritante, apelou para uma Carta ao Humanismo tentando ver até onde a sua primeira critica ao mundo tecnicizado poderia ir caso o humanismo pudesse ser reposto, ainda que artificialmente. É óbvio que ele testara também os efeitos das denuncias sobre o seu envolvimento com o nazismo. Como pôde o maior pensador do ocidente se envolver com a execução de uma ideologia tão medíocre e ao mesmo tempo monstruosa?
Não era tudo. Agora, em pleno século XXI, a engenharia genética permite ao seres humanos brincarem de Deus, isto é, permite que a nossa própria natureza seja reproduzida de modo livre, contando apenas com a nossa vontade e o nosso poder técnico-científico. A explosão e tontura causadas pelo poder técnico-cientifico-militar que o nazismo disponibilizou fez Heidegger tremer o seu dasein num solo minado em que a cultura caia de quatro ao poderio em voga. A técnica genética pode fazer com que os apelos por um mundo melhor e um novo homem sejam efusivamente interpretados a partir de uma linha de produção de protótipos humanos administrada pelo mercado de ações financeiras.
Transitamos, então, do poder despótico da física neoclássica, usada por governos ditos democráticos e com o argumento de que tínhamos que parar o inimigo da civilização, para o saber claro, distinto e limpo da genética pós-moderna financiada pelas bolsa-de-ação. A cola mágica da atividade cientifica com o financiamento privado de fundos de pesquisa direcionam o dasein para o abismo de uma ciência que segue cega pela vontade de saber e de verdade.
Há um hiato entre a física neoclásica, incluindo a teoria do caos e o princípio da incerteza de Heisenberg, e a técnica genética de reprodução controlada e induzida. Tal hiato pode ser descrito como o limiar da civilização e a prova pratica da teoria da evolução que ratifica o poder do mais forte sobre o mais fraco. A física detinha um poder, digamos, externo. A genética implica um poder interno pois permite o controle e a indução para a formação de seres vivos a partir de planejamento racionalizado.
Mas Habermas pegunta, perplexo: será que a disponibilização desta técnica de reprodução humana não afetará negativamente nossa auto-compreensão ética? Será que temos o direito de projetar seres humanos e, assim, privá-los de suas escolhas reais, uma vez que decisões genéticas, ao contrário de influências do meio, são irrevogáveis?
Jocoso talvez fosse se Heidegger enfrentasse o Habermas diante de um tribunal que tivesse por objetivo decidir sobre os limites da técnica na vida humana. Afinal, não foi Heidegger quem deu o ponta-pé inicial para desmoralizar a civilização moderna acusando-a de ter esquecido do ser para promover a coisa e a técnica imunda da ciência cartesiana? Habermas deveria invocar Kant para apoiarem um tribunal que julgasse o objetivismo canhestro da ciência e da técnica e as falsas pretensões humanistas de intelectuais pós-modernos. De certo que Foucault difere em muito de Heidegger e do parque genético ou mesmo do super-homem. Resta saber onde alocar Nietzsche nessa história escabrosa!
Porém, Habermas prefere o debate liberal, a esfera pública emancipada e aposta as suas fichas em nossa capacidade de entendimento mútuo e de afeto humanitário.
Leiam o livro e vejam nas entrelinhas que há muito mais coisa em jogo.
Sergio Fonseca
Historiador

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Leiam o artigo do professor Demétrio Magnólio no Estadão: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100218/not_imp512628,0.php

terça-feira, 2 de outubro de 2007

BRINCANDO DE FILOSOFAR: MONTEIRO LOBATO

Relendo algumas coisas de Monteiro Lobato nessas férias de final de ano fiz o seguinte questionamento: Ele não seria mais produtivo, no trabalho com as crianças, do que obras especificamente filosóficas? Afinal, o modo como as crianças lidam com os objetos filosoficos, a suposta imortalidade da alma, o corpo e a sexualidade, a liberdade, Deus, o tempo, as lembranças, a violencia e a agressividade, o sentido da vida e a morte… é muito especifico e não haveria como elas próprias fazerem filosofia no sentido clássico da expressão porque isso ao invez de enriquecer, empobreceria a criatividade. É uma verdadeira camisa-de-força submeter crianças e adolescentes ao ambiente sisudo, hermetico e, em alguns casos, hirto, dos mestres pensadores da humanidade.

Os jovens só podem acessar o universo filosófico por meios metafóricos, caminhos trocados, espaços ubíquos, universos densos, enfim, mundos ficcionais. Apenas desse modo eles podem partilhar de dúvidas, apreensões, medos e mistérios próprios das indagações filosóficas.

Então, isso tudinho não está já no Sitio do Picapau Amarelo? A Emilia com o seu faz-de-conta, o Pedrinho e a Narizinho, com o heroismo e a bondade, a Dona Benta com a habilidade narrativa e um sentido muito nosso de falar sobre a História Universal, a Tia Anastácia com a sua culinária encatada, o Tio Barnabé com suas histórias acabrunhadas, a Cuca com o seu desejo mórbido de vingança e ódio, o Rabicó com a gula, o Visconde com a sua sapiência e por aí vai, podem conduzir, e efetivamente tem conduzido, as crianças para um mundo mágico no qual as questões filosoficas estão ali, mas não se mostram como tais.

Nas conversas com os meus filhos, me convenci de que a filosofia para crianças é a literatura. Na verdade, a filosofia de adultos, se é que podemos falar assim, é no fundo boa literatura. Assim como a teologia, a boa literatura carrega no sangue o DNA filosófico.

A nossa literatura não fica a desejar nesse quesito. Quanto que a filosofia ganhou com o tema da loucura em O Alienista de Machado de Assis? A bazófia, a ironia, os custumes politicos e a racionalidade da modernização, foram temas presentes nas grandes obras literárias brasileiras.

O nosso Lobato é filho dessa grande tradição nacional. Há vários trabalhos enfocando as influencias intelectuais em seus textos. Para o meu interesse, cumpre apenas destacar que ele é o nosso filósofo da infância. Soube como ninguém ensinar filosofia a mais de uma geração de moleques e molecas brasileiras. É simplesmente impressionante como que ele, lá pelos idos de 1920, tratava a criança enquanto tal, sem descer a trivialidades e banalidades com que até hoje os programas infatis na TV se referem aos "baixinhos". O Sitio do Pica-Pau Amarelo, diferentemente de uma imbecilização generalizada da infancia, é um texto sem caretice, e com magnificência dobra os tempos.

O tempo, que frequenta as principais obras filosóficas ocidentais, é alí um objeto estranho, parece servir aos propósitos dos homens quando na verdade evidencia nossas maiores apreensões que é o medo do indeterminado, do misterioso e do acaso. Emilia acredita burlar o tempo e joga a responsabilidade negativa dos acontecimentos aos adultos que com sua caretice transformam tudo em fardo e desencanto. Ela assume a função positiva de encantar o mundo e é muito bem sucedida pois usa o pó mágico como libertação.

Porem, o sucesso não é na forma como ela acredita, mas na sua própria impossibilidade de dominar os acontecimentos. Isso faz do seu personagem o protótipo do eterno desejo infantil de querer crescer sem deixar de ser criança. O paradoxo da tentativa egóica de freiar o tempo que uma plêiade de autores tratou como forma trágica de existirmos. É da natureza da criança querer o impossivel, tentar conciliar o inconciliável, desejar o inalcançavel.

Os adultos, é verdade, também querem congelar o tempo. O que é o sucesso da industria da plástica-estética se não a recusa da passagem do tempo marcada nas rugas e na esclerose? As crianças, porem, não querem congelar um tempo real, elas querem manipular o tempo da fantasia, um tempo que não está aqui, mas que vive na imaginação, um tempo louco e maravilhoso. Toda criança ao ser criança nega a suposta ordem lógica do mundo criada pelos adultos que um dia elas serão. Elas negam sempre a realidade que lhes agredi e machuca. Assim, são senhoras do tempo e da realidade.

Mas, o pó não é exato, encrenca, como na vida, justamente na hora em que mais se precisa dele. De forma intempestiva, o tempo faz da impaciencia de Emilia um antídoto contra a sua própria arrogancia que a impede de entender que a vida não se deixa manipular ao nosso bel prazer, que a vida não tem lógica e a existencia, segundo J.P.Sartre, navega como um barco a deriva.

O mesmo tempo que um dia transformou o Menino Maluquinho do Ziraldo num cara legal, deixa Emilia perplexa e o leitor com a pulga atrás da orelha quando engana a bonequinha de pano que tudo pretende saber e fazer.

Diferentemente de Peter Pan, para quem ser criança faz congelar o tempo, no Sítio o tempo não pára, as crianças podem avançar ou recuar conforme uma ordem mágica que a narrativa de Dona Benta torna disponível mediante o sabor da leitura e o poder da imaginação. E é apenas no reino encantado que jogar com o tempo é possível e não traz consequencias. O tempo é ironico, paradoxal e contraditório na vida. Na imaginação, é uma nave, que tem o seu sentido definido pelo prazer da brincadeira.

Assim, o mundo dos adultos fica diametralmente oposto ao das crianças. São as crianças que passam a ensinar a filosofia, ao seu modo, porque só elas conseguem, pelo poder extraordinario da imaginação, e não há filosofia sem poder imaginativo, falar e vivenciar o pensamento filosofico. O lúdico, é a vida como experimento. E como disse o pai do pragmatismo americano, Charles Sander Pierce, é próprio do experimento a possibilidade de não dar em nada.

Ninguém, portanto, pode alegar que ao experenciar não sabia que estava embarcando numa viagem que poderia não dar em lugar algum. Como ele dizia, ciencia é uma forma de vida. E vida é uma forma de experenciar o mundo. As crianças são as primeiras a entender tal enunciado pragmatista porque lidam com o mundo a partir do lúdico que gira a vida, o tempo e os sentimentos para diversas direções possíveis.

O Menino Maluquinho, que é um bom exemplo de experimentos fantásticos com a vida, quando teve que vivenciar a dor da separação dos país tratou logo de inventar uma teoria maluca dos lados. Ele criou varios lados para poder acomodar o seu amor pelos pais e não ter que se dividir e escolher entre um e outro. Disse: cada lado tem o seu lado e eu sou o meu próprio lado.

Essa era a ordem possível que ele inventou diante de um mundo agora despedaçado. Não sem ironia, foi diante do tempo que o Menino Maluquinho percebeu ser um cara legal. Como frizou Ziraldo, ele não conseguiu burlar o tempo real. E o que aprendemos com o Maluquinho? Que não podemos substituir indefinidamente a realidade pela imaginação.

Nós, figuras impacientes com o lúdico, atravez da força tentamos fazer as crianças entrarem para o um mundo chato, careta, desagradável e desencantado. Nosso mundo é inflexivel, não dobra, não vira, não muda de lado. As crianças resistem, fazem caretas, corpo mole, dengo, pirraça, inventam teorias malucas, e, nesses atos, fazem filosofia, jogam os jogos complicados da existencia humana.

Nós achamos que o nosso mundo possui uma ordem eterna e as crianças não têm o mesmo entendimento. Como são mais frágeis que nós, são obrigadas a aceitar uma ordem que nós próprios teríamos dúvidas caso um dia alguém perguntasse, a final para que serve um tal mundo. Diria Emilia, para nada.

O próprio Sitio do Pica-Pau Amarelo como obra ficcional é já um objeto filosofico maravilhoso, porque é misteriosa a razão dele permanecer como encanto para gerações de crianças que vivem no mundo moderno weberiano, burocratico, absolutamento desencantado, sem vida espiritual, desacreditado de utopias, sonhos e ideologias.

Hoje a crença no homem está em baixa. Além de termos transformado o planeta numa grande lata de lixo, temos sido com nós mesmos injustos e incompreensíveis. Ora, Emilia já havia entendido tudo isso e proposto como saída convidar os adultos a brincar em seu jardim do faz-de-conta. Aqui os adultos poderiam lembrar de coisas maravilhosas da infancia que foram perdidas, mas que são imprenscindiveis para cultivar nossa humanidade.

E a coisa mais maravilhosa, de todas, na infancia, é a imaginação, o faz-de-conta e a brincadeira, que são soltas, livres, delirantes e irracionais. Lembro como o sabor da manga me conduzia para mundos infinitos, cheios de maravilhas e encantos. O cheiro da terra molhada, depois de meses sem chuva e com sol forte, me deixava simplesmente extasiado. Cheguei a comer a terra na tentativa de trazer para dentro do meu corpo aquele cheiro estonteante, efusivo e mágico. Hoje, cheiro a terra molhada, lembro da infancia, mas não experimento mais aquela sensação maravilhosa de prazer libertário do corpo, de magia encantadora. Hoje é um cheiro desencantado. A criança que havia dentro de mim, hoje não sei mais onde encontrá-la…

É o faz-de-conta que humaniza. Emilia explicou tudo isso direitinho e melhor do que qualquer filósofo ocidental. Não entendo porque os adultos das academias não conseguem sequer ler a Emilia, que dirá conversar com ela!

Poderíam, se assim o fizessem, finalmente entender que a Emilia, que é um presente de Lobato para todos nós, uma demonstração de sua generosidade, grandeza e genialidade, é o ponto de abertura da cultura que nos permite entrar para jogar com o tempo e a vida.

Quando li pela primeira vez Lobato tive a firme convicção de que se tratava de um rei da imaginação, de alguém que possui a Chave do Tamanho, talvez mais do que Lewis Carrol.

Diferentemente de Alice do País das Maravilhas, um mundo maluco e irracional, no qual as coisas estão fora de ordem e parecem de cabeça para baixo, Emilia pensa possuir a chave do mundo. Na sua imaginação, o poder de lidar com um tal mundo é propriedade sua. No decorrer das narrativas, porem, ela se mostra tão impossibilitada quanto Alice. Porem, finge saber e fazer o que não sabe e o que não pode. Ainda assim, Emilia e Alice são muito parecidas. Elas nos ensinam que só podemos viver uma vida legal se soubermos jogar o jogo do tempo e da vida. E isso não é fácil, como sabemos todos nós adultos.

A Marcha da História à Democracia Liberal foi Uma Conquista da Cultura Cristã?

A marcha dahistória à democracia liberal foi uma conquista da cultura cristã?O texto do filósofo ingles Roger Scruton na revista www.revistapronto.com.br sobre Fukuyama revisitado, é dignode atenção sob vários aspectos. Ele nos fazrecordar da famosa tese que ganhou notoriedade na década de 90 e queconsistia numa defesa firme da democracia liberal sob o argumento deque já havíamos visto tudo e agora estaríamos entrando numa espécie defase de hibernação da história, ou melhor, num fim da história. Alguns o interpretaram como um autor banal. Outros, acharam que elequeria nos proteger contra a sedução do totalitarismo. O mundosupostamente pós-liberal seria horripilante, mas ainda assim provavelporque já antes da democracia liberal os seus contornos estavam dadosna indistinção entre poder laico e poder sagrado. O totalitarismoradicaliza o medo do mundo livre e da democracia. O fundamentalismo dosdias de hoje apenas ratifica o que já era sombras lá nos inicios damodernidade iluminada. O que restou disso, Hegel tomou como motivo de reflexão para sustentaro vôo de Minerva. O resultado é: a modernidade consegue fazer tabuarasa de seu itinerario. Com a fenomenologia, tal percurso é saudadocomo movimento para a emancipação. Nele, o espirito se reconhece emseus próprios produtos, finda a alienação e dá-se o recolhimento quandoentão sujeito e objeto se sabem finalmente identicos.Dessa forma, Fukuyama, baseando-se emHegel, localizouna modernidade desencantadaos ultimos suspiros da história humana, era o fim dos percalços e dosideais romanticos e utopicos que haviam animado um conjunto grande deintelectuais inquietos e insatisfeitos, como o Marx, com a modernidade.O próprio Fukuyama hojesabe que isso não é tudo. Na modernidade tardia, o artigo deScrutton ganha mais uma relevancia.Ele reflete sobre essa tese do Fukuyama baseado no visor da crisecultural produzida pela recusa da democracia, do anti-americanismo e dohiato político-iluminista cuja pavimentação agora a Europa unificadasegue ao selar seu destino no fortalecimento da burocracia e nasobreposição de valores coletivos sobre valores individuais.Tudo isso obviamente sob os auspicios daluta contra o terror e naesteira do crescimento dos movimentos anti-ocidente. Alguém disse que oódio cultivado nos guetos academicos do ocidente e nas mesquitasislamicas não é exatamente contra o capitalismo, mas sim contra ademocracia e nosso estilo moderninho de vida, de frenquencia aosupermercado e shoping centers e principalmente de libertinagem sexual.A nova conexão de dominio mundial seria judeus-novaiorquinos contra omundo subdesenvolvido. O anti-semitismo encontra-se agora de mãos dadasao ódio à democracia amaricana.Richard Rorty, na mesma revista, refezas contase disse que a democracialiberal, como irrupção fortuita de valores em circunstanciashistóricas não-previstas, não-planejadas e não-induzidas, estaria agorasob a ameaça dos liberais fajutos que combatem o Estado do BemEstar com chavões velhos de que o distributivismo compromete o estiloamericano de vida. Na verdade, a democracia liberal se fortaleceexatamente na capacidade que tiveram os democratas de reiventar apolitica com base na solidariedade e na generosidade. Aqui Rorty eJurguem Habermas estão juntos no mesmo ponto que fez John Rawls sernotabilizado como defensor aguerrido dos valores democraticos dejustiça eliberdade. Porem, Scrutton, citando IbnKhaldun (1332-1406) e seguindo atese dos ressentimentos nietzschianos, faz recordar que nem tudo deruím que a civilização produziu originou-se da história. Assim, dizele, como pode racismo, xenofobia e tudo o mais, ser de matrizhistórica se já antes da história tinhamos uma propensão aagressividade? dai vem a polemica tese do filosofo ingles: nãodeveríamos creditar na conta da biologia esse caldo comportamental elogo assim, pensamos nós, derivar o ódio à democracia de nossas basesnaturais?Nem Rorty, Habermas ou Rawls, estariamdispostos a confirmar essa tesede matriz nietzschiana. Porem, devemos sim refletir sobre o que faz oocidente ser tão odiado? além obviamente de nosso estilo de vidamoderninho devíamos pensar um pouco sobre as pirotecnias políticas deum Bush e de um Blair para entender como esse ódio biológico que jáhavia antes, agora parece encontrar um campo fértil para proliferar.Mas, somos modernos porque gostamos de ser modernos.A democracia, além de fortuita eesperançosa, é fragil. Sem baseseconomicas estaveis e uma rede distributiva de riqueza, elasimplesmente se torna alvo certo dos sectários e se desmancha no ar.Como pode a democracia sobreviver em tal pantano arenoso?Não pode. Então o caldo culturalocidentallaico e as bases cristãs dademocracia podem sim ser devorados pelas potencias biologicas daespécie reprimidas a séculos em nome da boa convivencia e datolerancia. Tudo o que queremos é saber tolerar os diferentes. Nãopodemos aceitar como principio algo que nos fere em nosso amor próprioou em nosso amor fati. Se Cristo sabia que devíamos recuar,aplacar nossos ressentimentos e suportar nossas diferenças, é poque eletinha boas razões, e razões são sempre iluministas, de apostar as suasfichas numa civilização emancipada. Ainda podemos fazer isso?

Sergio Fonseca