quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Marx Está Morto?

Na literatura ocidental, a morte de Karl Marx, o fundador do comunismo, já foi anunciada diversas vezes. O que pretendemos fazer aqui nesse artigo é separar o Marx dos marxistas. Assim, uma coisa é Marx, outra muito diferente, são os marxistas. O que acabou e já está em adiantado estado de putrefação é o marxismo dos marxistas e não o de Marx. Até porque o de Marx são um conjunto de textos escritos em períodos diversos de sua vida e sobre temas também diversos. Não se pode então, como quer José Arthur Giannotti, responsabilizar o Marx pelo o que ele não disse e não profetizou.
Os marxistas aderiram ao ideal coletivista achando que tal atitude se depreendia dos escritos de Marx. A minha hipótese é a de que Marx via no horizonte o coletivo como meio de emancipação do individuo. Com base em sua formação burguesa, Marx exaltava a força intelectual e a vitalidade política do individuo. Porem, numa ordem social dividida em classes sociais, o individuo seguia sendo uma ficção. Ele só poderia ser resgatado no romance burguês, na base da revolução social. Mas, a revolução tinha como compromisso devolver ao individuo as rédeas de sua vida e história. Tarefa que ela nunca cumpriu.
Eu pessoalmente creio que em Marx encontram-se elementos para se avançar nas definições sobre o capitalismo que sejam mais adequadas as transformações do mundo moderno. Nesse sentido, nenhum marxista pós-Marx conseguiu superar o paradigma produtivista do trabalho e as idéias simplórias de um mundo sem política, organizado com base na administração das coisas. A linha de Marx é a da critica da racionalidade burguesa, o que implica um debate muito sério sobre o ócio produtivo, a arte nos tempos da automação, as proteções às liberdades individuais e fundamentalmente o tipo de vinculo que queremos manter com o nosso meio natural.
Até os anarquistas que continuam sonhando com um mundo sem conflitos políticos patinam no gelo da burocracia estatal. Com os marxistas não foi diferente. Também eles achavam que tomando o Estado se podia alterar a ordem social, quando na verdade toda a aposta do Marx era no sentido de fortalecer a democracia na sociedade, primeiro através de um coletivo liberado de obrigações trabalhistas de aumento de lucros burgueses e depois o próprio individuo iria chutar o coletivo para fazer-se autônomo enquanto sujeito de sua própria vida. E para quê o Estado se os indivíduos são agora competentes para organizarem os seus desejos e necessidades?
Não foi assim que aconteceu na história. Os ideais coletivistas tenderam para mais opressão porque o individuo foi diminuindo a ponto de fazer os seus próprios desejos serem confiscados em prol de um futuro radiante de desenvolvimento e bem estar material. Como esse futuro não chegava, a repressão aos instintos e desejos individuais aumentava tornando a vida privada impossível. Quando não se aceita ser um apêndice do Estado e do coletivo, resta apenas a resistência e a incerteza da luta. Nenhum regime coletivista se mantém se não for através inicialmente da propaganda do futuro e depois, quando isso desgasta, da repressão brutal pura e simples.
Mesmo em Israel, onde os Kibutz são sinônimo da liberdade coletiva socialista, a sua morte iminente pode ser debitada nas insatisfações do individuo num coletivo excessivamente protetor e fechado. É o fim de uma era na qual se acreditava que o coletivo podia mais em termos de solidariedade e aproximação de pessoas. Ninguém consegue mais se contentar com uma vida monótona de afazeres compartilhados entre iguais num coletivo amorfo e despersonalizado, ou, como no caso da antiga URSS, sufocado pela força estúpida do poder.
O individuo irrompe na história como força do desejo de potencia de ser sempre mais e mais. Creio que o sonho de Marx quebrava o lacre do ideal coletivista. Marx era muito burguês para se contentar com ideais cristãos de solidariedade coletivista e por isso buscou na história moderna das revoluções políticas e tecnológicas os sinais de um mundo que aboliria o trabalho estafante e o domínio da sociedade sobre o individuo.

Sergio Fonseca
Historiador

2 comentários:

Anarkiisto disse...

Sergio,

Vc fez uma confusao entre coletivo, igualdade e estado como nunca vi. Talvez nao foi bem assim ke vc quiz dizer, mas do meio pro final desse texto ta uma doideira.

Bem, acho ke vc keria dizer que na sociedade atual (ex. os Kbutz) se valoriza muito mais o individio, no sentido de cada um ter sucesso, bens, etc, do que a valorizacao coletiva. Por ex. do pensamento, acoes, etc.
Ah, Marx nunca diz um "a" sobre como funcionaria uma sociedade sem as tutelas do Estado. Eh mto simplorio dizer que estamos organizados e nao precisamos do Estado. Tem ke dizer ke a organizacao anarquista eh diferente das atuais, hierarkikas.

Alborges disse...

Não vejo da forma que o Anarkiisto. O coletivismo contraria a natureza humana, fere aquele cerne instintivo mencionado nas teorias psicanalistas. Chame de vontade de poder ou Princípio do Prazer, tanto faz, são apenas teorias, tal como o marxismo, que vai bem na analise da constituição da sociedade, localizando o centro essencial de funcinamento de qualquer sistema econômico - a mais valia. Conceito que Marx tomou a Ricardo e deu nova significa~ção explicando por que. Toda sociedade necessita de um excedente para sua própria sobrevivência. Se gastássemos tudo o que produzissemos onde haveria a reprodução dos próprios meios de produção? Se a análise do funcionamento da(s) sociedade(s) está correta o prognóstico de sua evolução não podia estar mais errado. O descendente de rabinos judeus não conseguia conter sua tendência a ver as coisas em termos apocalípticos, nem se livrar da visão hegeliana, transplantada para a vida material (produção e reprodução dos seres humanos em sociedade). Uma evolução de formas primitivas ateá forma superior e final da sociedade. Marx o supremo dialético tinha muito de positivista, influenciado pelo zeitgeist da segunda metade do século XIX, onde pululavam as idéias evolutivas de Darwin e Wallace e as descobertas mais recentes das ciências físicas. Quanto ao anarquismo e suas noções de cooperativismo e autogestão em comunidades autônomas de trabalhadores, apesar de moralmente desejável, não dá conta das complexidades da sociedade atual.